Archive for the ‘Arte’ Tag

As duas culturas

A 7 de Maio de 1959, Charles P. Snow, físico e escritor, proferiu em Cambridge uma conferência que viria a lançar um importante debate no meio académico. Habitante de dois mundos, o da cultura literária e o da cultura científica, Snow não entendia como era possível as duas culturas estarem tão claramente de costas voltadas uma para a outra.
Meio século depois a questão mantém-se e até se tornou mais pertinente.
Como artista que nos anos 90 se começou a interessar seriamente por Ciência posso confirmar, por experiência própria, a dificuldade de diálogo entre as partes. Do meu lado não entendia a ignorância da maioria dos cientistas sobre a cultura contemporânea, nomeadamente, no domínio da Arte, em que as referências ainda ficavam mais ou menos por alturas do Impressionismo. Hoje estou certo de que os meus interlocutores devem ter ficado abismados com o meu desconhecimento de coisas tão elementares em Ciência como, por exemplo, a Segunda Lei da Termodinâmica.
Outro factor de incomunicabilidade é a linguagem. Basta pensar na palavra Caos que para mim na altura significava desordem e aleatoriedade, mas para a Ciência significa um sistema determinístico, não-aleatório portanto, dependente das condições iniciais. Ou seja, um tipo de ordem bastante específico ainda que difícil de prever.
Mas na problemática relação entre Ciência e Artes há mais do que jargão e ignorâncias mútuas. No campo da Cultura das Humanidades, onde incluímos as Artes e as chamadas Ciências Humanas como por exemplo a filosofia, foi-se aprofundando uma enorme arrogância e desprezo pelo conhecimento científico. Ao ponto da própria palavra Cultura ter sido apropriada de forma a excluir a Ciência e a Tecnologia e, tanta vez, ser entendida como abertamente anti-científica. Ainda hoje muita gente considera que verdadeira cultura é aquela que defende a humanidade contra o saber científico e as tecnologias. Basta pensar como, por exemplo, os computadores e a Internet, foram e continuam a ser atacados como algo destruidor da verdadeira Cultura. É assim que muitos escritores ainda afirmam orgulhosamente escrever à mão ou advogam que a disponibilização de bibliotecas inteiras na Internet é um atentado contra a leitura. Ou como, sem surpresa, António Barreto, expoente do reaccionarismo intelectual, diz no último número da revista Ler que “o Magalhães é o maior assassino da leitura em Portugal”. E isto quando todos os estudos sérios demonstram precisamente o contrário, isto é, que o uso do computador e da Internet têm aumentado o consumo de livros e promovido grandemente a escrita e a leitura, em particular junto dos mais jovens.
Cinquenta anos depois do alerta de Snow a cultura literária e das artes tem vindo a radicalizar as suas posições contra a Ciência. O campo das Humanidades não tem parado de ampliar o seu desprezo pelo conhecimento, no pressuposto de que a expressão do humano se manifesta sobretudo através do subjectivismo e de diversas formas de sobrenaturalidade.
Ora esta visão, tipicamente de resistência ao estilo Ludita, é um efectivo problema das sociedades desenvolvidas. Ao se transformar a Cultura numa frente de combate ao conhecimento sabota-se objectivamente a evolução social e impede-se a criação de condições para que a criatividade e a inovação possam ter lugar.
A Ciência e a Tecnologia são os principais motores do progresso humano. A elas se deve o aumento, nalguns casos exponencial, de bem-estar individual e de avanço civilizacional. Basta comparar as condições de existência de hoje com algumas décadas atrás. Na saúde, no acesso a bens e serviços, no saber, na capacidade de realização pessoal, grandes saltos foram dados graças a importantes descobertas científicas, desde os transístores à genética, para só citar dois exemplos.
O mundo precisa de um novo reencontro das duas culturas. Já não será à maneira renascentista quando não havia separação, vista sobretudo a necessidade de especialização. Mas é evidente que precisamos de uma nova Cultura do Conhecimento aberta ao saber e capaz de contribuir através da imaginação e da criatividade para a própria evolução e efectiva racionalidade humanista da Ciência. É por isso que há quem fale não de duas mas de três culturas. A das Humanidades, a da Ciência, e agora a da recombinação entre as duas.

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Durante todo o mês de Agosto.

RAP em São Paulo

RAP na Bienal Internacional de Arte e Tecnologia
Emoção Art.ficial 4.0, Emergência
Itaú Cultural, São Paulo

Notícias:
TV Globo
Folha de São Paulo

Voronoi [2002]

Exposição Voronoi

A série Voronoi realizada em 2002 baseia-se nos diagramas do mesmo nome criados pelo matemático russo Georgy Voronoy. Trata-se de uma geometria celular, muito dinâmica, que hoje encontra múltiplas aplicações na ciência, desde a biologia à meteorologia e em inúmeros modelos de crescimento de cristais, manchas de poluição, desenvolvimento urbano, contaminação social e cultural.

Tenho aplicado estes diagramas em várias obras de arte e também nalguns projectos de arquitectura como é o caso do Auditório de Albufeira que recentemente concebi.

Para esta exposição a Galeria é invadida pela geometria Voronoi gerando uma surpreende e nova percepção do espaço.

Inaugura dia 11 de Julho, Sexta-feira, pelas 21.00 horas

LEONEL MOURA ARTe
Rua das Janelas Verdes, 76
1200-691 Lisboa
Terça a Sábado das 13.00 às 19.30 horas
T. +351 213967261

Aos artistas inovadores

Tendo criado a Galeria LEONEL MOURA ARTe essencialmente para divulgar o meu trabalho sempre esteve no horizonte a possibilidade de mostrar neste espaço obras de outros autores,ainda que exclusivamente daqueles que desenvolvem uma arte de base tecnológica, científicaou em qualquer caso inteligente e inovadora.
Nesse sentido aceito propostas de projectos de obras ou de exposição, as quais num primeiro contacto devem ser enviadas para o email:
studio [at] leonelmoura.com
ou deixar um comentário neste blog
(neste primeiro contacto basta uma ideia ou uma descrição simples)

Nova arte na China

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Acaba de sair na China um livro dedicado à nova arte de base científica e tecnológica. Reune dezenas de artistas de todo o mundo, mostrando que esta é uma tendência imparável, ainda que bastante ignorada pela chamada arte contemporânea. O meu trabalho aparece em várias secções.

Criatividade Artificial

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Desde Fevereiro de 2007 tenho um robot artista em exposição no Museu de História Natural de Nova Iorque. Encontra-se na sala dedicada à evolução da humanidade, dentro de uma vitrina, em permanente actividade criativa. RAP, é este o seu nome [de Robotic Action Painter], gera composições originais, decide por si próprio quando o desenho está pronto e assina no canto inferior direito como qualquer artista humano.
Os desenhos são abstractos e muito elementares. No essencial revelam uma ou mais concentrações de riscos e cores em determinadas áreas, enquanto o resto é deixado com pouca expressão pictórica. Fazem lembrar simples garatujas de crianças, mas também aglomerados urbanos ou galáxias.

De qualquer modo, por muito primitiva que seja, esta criatividade é profundamente original. Tal como sugeria Norbert Wiener, o pai da cibernética, se queremos permitir a emergência de uma criatividade das máquinas é preciso “retirar o factor humano do processo”. E RAP que se encontra a milhares de quilómetros de distância do seu criador, o qual não tem qualquer meio de o influenciar ou manipular, gera desenhos baseados na sua própria percepção do mundo.
O processo criativo de RAP não é exclusivamente aleatório, ainda que este, à semelhança dos mecanismos biológicos, tenha um papel fundamental na produção de decisões. Há de facto, para além disso, a expressão de uma criatividade própria, através de processos descritos pelas teorias da complexidade, da auto-organização e da emergência.
Estamos assim perante uma das primeiras manifestações­ – assente numa base científica sólida – de uma criatividade produzida por uma entidade não-humana e não-natural. O que significa que mais do que belos ou curiosos, estes desenhos são a expressão de uma nova revolução na arte. Aquela que abre o caminho a uma “criatividade artificial”, na sequência do que já hoje é plenamente aceite sob a designação de “inteligência artificial”.
LM

Os primeiros 12 desenhos realizados por RAP em Nova Iorque podem ser vistos na Galeria LEONEL MOURA ARTe a partir de 17 de Abril.

Galeria
LEONEL MOURA ARTe
Rua das Janelas Verdes, 76 – Lisboa
T: +351 213967261
Terça Sábado das 13.00 às 19.30 horas
galeria@leonelmoura.com

Entrevista

No Ciência Hoje

Fotografia

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A invenção da fotografia em meados do século XIX começou por ser uma curiosidade amadora, um processo quase alquímico, exibido nas feiras do incrível mesmo ao lado da mulher barbuda e do homem elefante. Mas cedo a sua influência na cultura humana e em particular nas artes foi determinante. Nestas permitiu a grande libertação do próprio objecto artístico, passando da representação de algo para a apresentação de si mesmo e de que a arte abstracta é o grande salto conceptual. Depois, com Muybridge, a fotografia descobre o movimento e o cinema e um pouco mais tarde com Walter Benjamin entende-se já não só como reprodução de vistas parcelares do mundo, mas como modelo maior desta sociedade das imagens e do espectáculo que é a nossa.

Hoje vivemos um processo algo semelhante. As novas tecnologias da informação já mudam radicalmente as nossas vidas, mas a percepção geral que predomina é a de um conjunto de gadgets, mais ou menos úteis, mais ou menos deslumbrantes. Em particular no domínio da cultura e da produção artística a sua influência é ainda incipiente, senão mesmo objecto de uma rejeição em nome de uma pretensa singularidade criativa do humano. Mas é uma questão de tempo. A maioria das pessoas pode não se ter dado conta, mas a revolução artística do futuro já começou e é imparável. A arte anda sempre mais depressa do que a sua notícia.

[ imagem da série RGB ]

Los artistas robóticos que pintan como hormigas

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El creador portugués Leonel Moura ha dado un nuevo paso en el intento de que el arte, esta vez ayudado por la robótica, imite a la vida y ha creado unos pequeños autómatas capaces de pintar siguiendo el comportamiento de las hormigas.

Las obras y los propios seres artificiales que las componen y firman han conquistado ya espacios en museos y galerías de Nueva York y Lisboa y se pueden cotizar hasta a 20.000 euros por pieza.
Con una trayectoria más cercana a la computación bioinspirada (ciencia que se basa en la actividad de la naturaleza) que de la novela futurista ‘Yo Robot’ (1950), del estadounidense Isaac Asimov, Moura saca partido de sus estudios sobre el comportamiento de los insectos sociales.
El artista portugués forma parte de una corriente en la que también figuran intelectuales como el ingeniero electrónico italiano Marco Dorigo, que considera que el trabajo cooperativo de las hormigas puede resolver muchos problemas de logística y transmisión de datos por internet.
Al igual que Doriga, Moura ha centrado su atención en estos insectos por su capacidad de encontrar siempre el camino a seguir y lo ha trasladado a las creaciones robóticas introduciendo algoritmos que copian el comportamiento de las hormigas.
A partir de las investigaciones sobre la actividad de esos y otros insectos sociales, intentó reproducir artificialmente en sus pequeños robots un sistema de comunicación basado en un rastro químico, el de la feromona.
Moura asegura, en declaraciones a Efe, que lo ‘artificial es una forma de vida’ y pone su afirmación en práctica gracias al uso de colores en sustitución de las feromonas que desprenden las hormigas al moverse.
Los robots hormiga reaccionan ante la aparición de líneas, trazos o manchas sobre el espacio artístico en el que evolucionan.
Con esa técnica imitadora de la vida, los pequeños ingenios artistas crean diseños abstractos que, a pesar de parecer fruto del azar, siguen patrones definidos y se acercan al denominado ‘bioarte’.
Para realizar sus creaciones, sobre un lienzo en blanco, los robots pintan pequeños trazos de color de forma aleatoria, para después buscar colores y líneas por medio de sus sensores orientados a la tela por la que se mueven de forma autónoma.
Moura asegura que este tipo de arte sigue los preceptos marcados por la ‘action painting’ de Jackson Pollock o el surrealismo definido por el francés André Breton como arte sin cualquier ‘ejercicio de razón’ o ‘preocupación estética o moral’.
El fruto culminante del trabajo del artista portugués es el RAP (Robotic Action Painter), creado para el Museo de Historia Natural de Nueva York.
Cuando este pequeño autómata decide que su pintura está concluida, en función de la información que recoge del lienzo, se dirige a la esquina inferior derecha y firma su nueva creación.
La experimentación artística de Moura no se reduce a los autómatas pintores y otra creación de la que se siente muy orgulloso es el robot poeta, bautizado con las siglas ISU y diseñado para hacer composiciones mediante asociación de caracteres y palabras, con un estilo que recuerda al letrismo.
El artista portugués abrió recientemente una galería de arte para mostrar y vender sus creaciones, que pueden alcanzar un precio de hasta 20.000 euros.
Entre los trabajos elaborados con técnicas bio-robóticas destacan composiciones sobre obras de Picasso, Frida Kahlo y Warhol y otra compuesta por ISU con las letras de la canción ‘Hey Joe’, del legendario guitarrista de rock Jimi Hendrix.
‘Las creaciones de los robots provocan fascinación en el público, que entiende que no se trata de una fotocopiadora, sino que son obras únicas porque mis robots nunca hacen una pieza igual’, asegura Moura, que tiene previsto trasladar de Nueva York los cuadros de RAP para exponerlos en su galería de Lisboa.
Moura ha creado ocho robots pintores diferentes y decidió construir en las afueras de la capital portuguesa una especie de zoológico para sus criaturas mecánicas, el Robotarium X, con 40 ejemplares encuadrados en una docena de especies.

EFE
(Artigo da revista Terra)